O título em português, como sempre prolixo e reduzido quanto à significação. Ou seja, de uma impropriedade incrível ... chama-se “ Lembranças Vivas ” – absorto, não me lembrei de ver o título em inglês nos créditos finais.
É um filme feito nos anos 90, com participação fundamental do clã Sheen, leia-se Emilio Estevez – ator e diretor – e Martin Sheen – ator -, contando ainda com uma atuação irritantemente magistral de Kathy Bates.
Um relato pungente não só sobre a guerra do vietnan, mas sobre as relações sociais e familiares, como relações de poder orquestradas subliminarmente na cabeça de cada um daqueles que detinham a manipulação da razão – em nome da ética da honra e glória da guerra, transfigura-se o sacrifício puritano, outrora castração da libido, em um adestramento movido pela repressão a qualquer emoção humana – como instrumento de massificação de uma ideologia totalitária. A juventude nazista talvez fosse um pouco mais perversa do que isso.
O texto e a direção do filme, mostram o quadro agonizante de uma família em um processo intestino de luta entre realidade e aparência, entre perfeição e mutilação, que ao fim irá se definir com o expurgo daquele que um dia foi herói de guerra, orgulho da família. O momento marcante em que tudo ganha força e sentido, é quando, diante da fragilidade do filho, o pai o expulsa da casa vociferando descontroladamente que era ele quem mandava... o óbvio se apresenta sem distorção – a ordem não admite contra-ordem.
O filme baseou-se em uma peça. Há um tom dramático que permeia os diálogos, utilizando-se com propriedade do recurso teatral na construção dos personagens e na tensão crescente que o diretor imprime em cada cena – valorizando a ação em detrimento dos planos, com uma fotografia que privilegiou suas expressões em closes que captavam a tensão latente que estava por eclodir. Mesmo as cenas externas, simbolizavam o horror paranóico do protagonista; enquanto sua coexistência dentro da casa com os pais – e a irmã – se parecia com o inferno dantesco.
A simbiose entre personagem e ator tão cara ao teatro, foi muito feliz. Pela coesão do elenco, é difícil se falar do desempenho de um ou de outro ator, embora Kathy Bates tenha levado ao extremo a loucura e a alienação da dona de casa frustrada e ressentida, dos anos 60.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
"Mama Mia"
Certamente a dimensão colossal, que, por exemplo, o próprio Henri Miller, através de recursos a topônimos, atribui às diversas passagens que constituem a história da civilização helênica, ou mesmo a dimensão humana de uma nação composta por homens e mulheres que são o registro vivo de valores e tradições, pulverizados por séculos de existência -, que se escondem sob maneiras pouco ortodoxas, uma geografia acidentada, manifestações rudimentares etc... sob o manto de um encanto visceral. Colosso e Visceralidade, como pretendia Henri Miller ... isto não se terá em “Mama Mia”.
Entretanto, não se está falando de literatura mas de cinema – embora esta diferenciação seja em vários casos conveniente, e é este o caso. As poucas manifestações típicas foram notoriamente estilizadas, mas de qualquer forma esta não era uma preocupação estética ou mesmo do texto. A atmosfera está mais para “Xanadu”, com Olivia Newton Jonh, contudo as locações originais e a opção pela superficialidade como limite no enfoque de todo aquele microcosmo – que já foi material para “Zorba, o Grego” -, funcionaram bem no estilo e no gênero escolhidos.
Gênero, musical. Timing frenético. Trilha toda calcada na sonoridade melíflua do ABBA e um tratamento contemporâneo na contextualização da narrativa. Até o lado kitcsh e fake e os estereótipos, compõem a atmosfera leve e a efemeridade das coisas, que dão uma agilidade pandemônica às seqüências, tendo como contraponto de fundo um cenário mítico. Entretanto, o resultado não é leviano: não há contradição temática entre filme e história.
O mote do filme, a começar pela trilha sonora - para os padrões atuais anacrônica -, continuando com a menção a temas como casamento, relacionamentos livres, panteísmo, religião e costumes ortodoxos, internet e isolamento, parecer ser o cogito sobre a imbricação entre o velho e o novo, e da relatividade das suas conceituações e rotulações.
De resto, as passagens são deliciosas para quem já ouviu e, também, os que ainda não tinham escutado o ABBA, sobretudo a forma como os temas foram tratados com situações emblemáticas, inteligentes e risíveis, por personagens centrais que poderiam ser caricatos não fosse sua radical sincronia com o mundo real – homens e mulheres de meia idade, e suas diversas opções existenciais.
Por Antonio Henrique Garcia
Entretanto, não se está falando de literatura mas de cinema – embora esta diferenciação seja em vários casos conveniente, e é este o caso. As poucas manifestações típicas foram notoriamente estilizadas, mas de qualquer forma esta não era uma preocupação estética ou mesmo do texto. A atmosfera está mais para “Xanadu”, com Olivia Newton Jonh, contudo as locações originais e a opção pela superficialidade como limite no enfoque de todo aquele microcosmo – que já foi material para “Zorba, o Grego” -, funcionaram bem no estilo e no gênero escolhidos.
Gênero, musical. Timing frenético. Trilha toda calcada na sonoridade melíflua do ABBA e um tratamento contemporâneo na contextualização da narrativa. Até o lado kitcsh e fake e os estereótipos, compõem a atmosfera leve e a efemeridade das coisas, que dão uma agilidade pandemônica às seqüências, tendo como contraponto de fundo um cenário mítico. Entretanto, o resultado não é leviano: não há contradição temática entre filme e história.
O mote do filme, a começar pela trilha sonora - para os padrões atuais anacrônica -, continuando com a menção a temas como casamento, relacionamentos livres, panteísmo, religião e costumes ortodoxos, internet e isolamento, parecer ser o cogito sobre a imbricação entre o velho e o novo, e da relatividade das suas conceituações e rotulações.
De resto, as passagens são deliciosas para quem já ouviu e, também, os que ainda não tinham escutado o ABBA, sobretudo a forma como os temas foram tratados com situações emblemáticas, inteligentes e risíveis, por personagens centrais que poderiam ser caricatos não fosse sua radical sincronia com o mundo real – homens e mulheres de meia idade, e suas diversas opções existenciais.
Por Antonio Henrique Garcia
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
A Outra
“ A Outra ”, como título, sugeriria várias interpretações decorrentes de suas diferentes conotações no tempo e no espaço, na condição de uma verdadeira entidade ou instituição para-familiar. Entretanto, parte a narrativa de um ponto de vista comum – o da concubina, amante etc. - evoluindo para uma trama urdida por uma mulher, cortesã e arrimo de uma família decadente cujo único patrimônio era seu título de nobreza, móvel conveniente nas relações de poder que prenunciavam o nascimento de um estado central, representado na figura do Rei e todo o aparato que o orbitava.
Contudo, a pretensão de se criar um enredo a partir de um fato histórico emblemático e de desdobramentos tão importantes para civilização ocidental, pegando carona no formato trágico, careceu de um tratamento mais profundo tanto na construção quanto na direção dos personagens. Ponto para a caracterização de um ambiente amoral, em uma época que ainda oscila entre costumes bárbaros e a secularidade eclesiástica.
Entretanto, a crueza que permeia toda ação da trama, demanda uma elaboração estrutural mais consistente. A personagem de Ana de Bolena, não encontra seu arquétipo, elemento fundamental na construção de um personagem trágico. Suas ações resultam deslocadas, sem referência essencial. A tentativa de fazê-la protagonista do contexto histórico no qual se insere a trama -, que vem a ser o argumento do filme -, resulta uma referência episódica desprovida de força anímica, o que paradoxalmente a aproxima da história oficial, da qual se tentou desprender. Mesmo a tentativa do incesto – não sei se fato ou não – soou estranhamente puritana... um belo exercício.
O final no entanto reserva o momento mais coerente do filme. A postura do monarca, é plenamente justificável no âmbito do contexto da narrativa e da história; o sacrifício como pena e forma de submissão é um modelo e costume introjetado na sociedade – o catártico espetáculo da execução -, preservado como instituição pulverizadora das inquietações sociais.
A perspectiva dedicada pelo filme à futura ascensão da princesa Elizabeth, indicando iminência de um novo momento histórico-civilizatório é também um feliz epílogo encontrado para o desfecho do filme.
Por Antonio Henrique Garcia
Contudo, a pretensão de se criar um enredo a partir de um fato histórico emblemático e de desdobramentos tão importantes para civilização ocidental, pegando carona no formato trágico, careceu de um tratamento mais profundo tanto na construção quanto na direção dos personagens. Ponto para a caracterização de um ambiente amoral, em uma época que ainda oscila entre costumes bárbaros e a secularidade eclesiástica.
Entretanto, a crueza que permeia toda ação da trama, demanda uma elaboração estrutural mais consistente. A personagem de Ana de Bolena, não encontra seu arquétipo, elemento fundamental na construção de um personagem trágico. Suas ações resultam deslocadas, sem referência essencial. A tentativa de fazê-la protagonista do contexto histórico no qual se insere a trama -, que vem a ser o argumento do filme -, resulta uma referência episódica desprovida de força anímica, o que paradoxalmente a aproxima da história oficial, da qual se tentou desprender. Mesmo a tentativa do incesto – não sei se fato ou não – soou estranhamente puritana... um belo exercício.
O final no entanto reserva o momento mais coerente do filme. A postura do monarca, é plenamente justificável no âmbito do contexto da narrativa e da história; o sacrifício como pena e forma de submissão é um modelo e costume introjetado na sociedade – o catártico espetáculo da execução -, preservado como instituição pulverizadora das inquietações sociais.
A perspectiva dedicada pelo filme à futura ascensão da princesa Elizabeth, indicando iminência de um novo momento histórico-civilizatório é também um feliz epílogo encontrado para o desfecho do filme.
Por Antonio Henrique Garcia
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Batman
Batman poderia se enquadrar, principalmente para aqueles desavisados, como um filme espetacular recheado de efeitos especiais, caracterizações bizarras e o altruísmo desinteressado do herói da estória ... História, no caso, se formos observar tudo o que a cerca e a contemporaneidade deste filme – sem dúvida, o de melhor argumento entre todos os da série. Aliado a isso vai resgatando o espírito dos quadrinhos de Frank Miller, o niilismo que é o avesso do sonho urbano – de uma comunidade imune ao caos que a cerca.
Muitas são as novas perspectivas apontadas pelo filme. Primeiro, sua plataforma é uma cidade real, formada por pessoas normais – Nova York, Chicago etc. Segundo, fica muito clara a relação que o roteiro estabelece com o presente, pela onisciência que permeia toda a narrativa do filme sobre os acontecimentos ainda vivos do 11 de setembro.
Porém, existe um aspecto outro aspecto, que é o eixo da narrativa – a discussão sobre a instituição “herói americano”. Nesse sentido, o filme é muito rico e apela para caráter esquizóide de tal definição – Batman procura uma personalidade, Gotham City procura uma Cara, Harvey Dent é um carreirista falastrão ou um cidadão que se dispõe a se sacrificar pela sociedade. A população mostrada como uma massa manipulável pela mídia – o Coringa -, tudo isso forma um painel hiper-realista do momento americano.
Mas o filme tem o mérito de resolver essas questões de uma forma positiva, ao deixar espaço para a reflexão com diálogos pontuais interessantíssimos entre seus protagonistas. E, ao contrário do que se diz, a participação do Coringa não ofusca a de Batman, e sim a complementa, e os mostra ambos como os elementos que carregam as idéias do filme. A direção tem o grande mérito de conduzir o andamento do filme como uma sinfonia.
E, no fim, você tem de volta o pathos do herói - que é também o inimigo público, tão presente no imaginário do americano, como a entidade que confronta o Estado sem confrontar o Status-quo -, e o resgate dos tipos soturnos que habitavam os quadrinhos originais de Frank Miller, herdados de uma tradição que vem desde Hawthorne e Edgard Allan Poe.
Muitas são as novas perspectivas apontadas pelo filme. Primeiro, sua plataforma é uma cidade real, formada por pessoas normais – Nova York, Chicago etc. Segundo, fica muito clara a relação que o roteiro estabelece com o presente, pela onisciência que permeia toda a narrativa do filme sobre os acontecimentos ainda vivos do 11 de setembro.
Porém, existe um aspecto outro aspecto, que é o eixo da narrativa – a discussão sobre a instituição “herói americano”. Nesse sentido, o filme é muito rico e apela para caráter esquizóide de tal definição – Batman procura uma personalidade, Gotham City procura uma Cara, Harvey Dent é um carreirista falastrão ou um cidadão que se dispõe a se sacrificar pela sociedade. A população mostrada como uma massa manipulável pela mídia – o Coringa -, tudo isso forma um painel hiper-realista do momento americano.
Mas o filme tem o mérito de resolver essas questões de uma forma positiva, ao deixar espaço para a reflexão com diálogos pontuais interessantíssimos entre seus protagonistas. E, ao contrário do que se diz, a participação do Coringa não ofusca a de Batman, e sim a complementa, e os mostra ambos como os elementos que carregam as idéias do filme. A direção tem o grande mérito de conduzir o andamento do filme como uma sinfonia.
E, no fim, você tem de volta o pathos do herói - que é também o inimigo público, tão presente no imaginário do americano, como a entidade que confronta o Estado sem confrontar o Status-quo -, e o resgate dos tipos soturnos que habitavam os quadrinhos originais de Frank Miller, herdados de uma tradição que vem desde Hawthorne e Edgard Allan Poe.
Por Antonio Henrique Garcia
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Ciclo Stanley Kubrick
“ O Lutador ”
Em “ O Lutador ”, Kubrick usou suas experiências como jornalista, para fazer um filme quase documental em que acompanha a trajetória de um lutador de boxe, nos momentos que antecedem o combate. Foi um filme sem muita repercussão, que basicamente retratou os bastidores e a preparação de um lutador antes de entrar na arena – assim como o fizeram séculos antes os gladiadores. Embora com uma outra roupagem e regras mais civilizadas, no combate moderno a morte também poderia ser um dos possíveis desfechos ...
Entretanto, o que chamaria a atenção da crítica neste filme, não seria esse aspecto de crônica marginal. Mas a forma como o diretor conseguiu evidenciar a plasticidade da luta, acompanhando de perto todos os seus movimentos, criando uma atmosfera fria e dramática do evento. Enquadrando a perspectiva sob a ótica da platéia, sutilmente contraposta à figura do homem – ao mesmo tempo Quixotesca e Titânica.
Enfim, “O Lutador” chamou a atenção pela sua fotografia privilegiada, provavelmente fruto da experiência que Kubrick adquirira sobre essa técnica, em sua breve e precoce passagem como jornalista e fotógrafo.
Este foi seu primeiro filme. Contudo não foi ainda um longa metragem.
Seu próximo filme foi um longa “Noir”, de produção independente e atores desconhecidos, sobre a relação entre um lutador de boxe fracassado e uma dançarina da noite. Nesta película, o lutador veio a se tornar também um assassino, já demonstrando seminalmente a queda por temas que revelassem a perversão como uma extensão da sociedade civilizada.
“ Spartacus ”
Seu primeiro filme da fase holywoodiana. Reuniu grandes atores como Lawrence Olivier, Kirk Douglas, Charles Laughton, Peter Ustinov etc., entretanto já aí ele não demonstrou se sentir muito à vontade com o Mainstream.
À abordagem dos grande épicos preferiu focar os personagens, praticamente dividindo-os entre aqueles cuja violência era a única linguagem que conheciam – os gladiadores -, e que não apresentavam grandes nuances psicológicas, e a elite romana, retratada como casta de valores decadentes, que vivia urdindo planos de tomada do poder sob a égide do “Senado Romano”, uma instituição falida como representação popular. Os Patrícios eram manipulados pelos Senadores, em seus projetos de poder.
Mais uma vez Kubrick recoloca o tema da perversão como fenômeno social, uma disfunção da civilização. Ao se rebelar, aqueles que eram objeto da crueldade patrocinada pela casta da nobiliarquia da república, catalisam a insatisfação latente de um império decadente. Entretanto, como um pathos constante na obra de Kubrick, aquilo que parece estar controlado por mecanismos remotos, de repente aflora de forma selvagem e bárbara.
“ 2001 – Uma Odisséia no Espaço ”
À época considerada uma obra que sintetizou o limiar de uma nova era – pela justaposição inicial a tudo o que havia sido feito até então, através da metáfora das descobertas datadas da pré-história do homem ... com um corte abrupto para esse mesmo homem, no Século XXI . Uma nova perspectiva do que viria a ser a Ficção Científica Moderna, realmente sua linguagem foi precursora de muitos outros filmes que o sucederam.
Outro aspecto importante, o Estético. A existência da gravidade como elemento real, que mantém uma ordem universal, foi magistralmente expressada espatifando o simulacro, através do qual o espaço infinito era reduzido a um mundo de quimeras, muito mais assimilado ao inferno subterrâneo de Dante.
Porém, a grande revolução apontada pelo filme foi o advento da Era da Informação, onde as relações humanas agora eram permeadas pela interferência da máquina. Não é à toa, que um computador dita o destino de toda a tripulação da nave. Este dispositivo neuro-cibernético é propositadamente assemelhado ao comportamento e às reações do homem, nominável, que veio a se tornar um organismo auto-destrutivo – mote observado em toda a obra de Kubrick, em que, mesmo não sendo de “esquerda”, são as contradições do próprio sistema que o levam a um processo de decadência. Em uma análise mais acurada dos temas recorrentes nos seus filmes, essa decadência nunca origina uma nova perspectiva mas desemboca em um movimento catártico, desprovido contudo das teses da terapeutica psicanalítica tradicional, entretanto muito crítico do viés psico-social da sociedade capitalista puritana.
Embora frio, é um marco do cinema: cheio de significações que mostram a transformação tecnológica, em andamento, da era da industrial para a era da informação, e suas conseqüências antropológicas – porque este sempre o foco de Kubrick, o homem.
“Laranja Mecânica”
Laranja Mecânica pode até parecer em seu texto, um filme que captava o prenúncio do movimento “Punk” em sua virulência urbana. Entretanto, foi muito além em suas pretensões temáticas, e, sobretudo, estéticas.
O protagonista longe de ser um proto-punk, não tem motivação alguma para agir como age. Nem crítico das instituições, iconoclasta, ou de origem proletária, antes de tudo ele parece viver num limbo social, o qual lhe permite ser apenas o que é – um produto de alguma ideologia alienígena totalitária.
A geografia e geometria das cenas se parecem com “2001...”, com ambientes claustros, que sugerem uma forma entrópica de enquadramento, com distorções de imagem e travellings ... portas que são a separação entre o devaneio e a realidade – um traço lúdico, talvez influência da fábula de Lewis Carrol – Alice, no País das Maravilhas.
Mais uma vez, a temática da perversão como um sub-produto social é o que sobressai na narrativa de Kubrick ... entretanto dessa vez ele incorpora como pano de fundo, sutilmente, a tessitura de uma superestrutura jurídico-política totalitária, seguindo uma perspectiva, sobretudo na época em que foi feito o filme, observada em outros filmes como “1984”, e mais tarde “Brazil, o Filme”... O que, do ponto do vista da economia política da reforma do Estado, na Inglaterra, era um assunto bastante em voga, que veio a culminar com a desestatização de muitas empresas inglesas na governo Margareth Tatcher, “ A Dama de Ferro ” ... mais uma vez a vida imita a arte, ou, pelo menos, há uma relação de imanência entre ambas.
Outros filmes : "Glória feita de sangue", "Lolita", "Dr. Fantástico" e "O Iluminado".
Por Antonio Henrique Garcia
Em “ O Lutador ”, Kubrick usou suas experiências como jornalista, para fazer um filme quase documental em que acompanha a trajetória de um lutador de boxe, nos momentos que antecedem o combate. Foi um filme sem muita repercussão, que basicamente retratou os bastidores e a preparação de um lutador antes de entrar na arena – assim como o fizeram séculos antes os gladiadores. Embora com uma outra roupagem e regras mais civilizadas, no combate moderno a morte também poderia ser um dos possíveis desfechos ...
Entretanto, o que chamaria a atenção da crítica neste filme, não seria esse aspecto de crônica marginal. Mas a forma como o diretor conseguiu evidenciar a plasticidade da luta, acompanhando de perto todos os seus movimentos, criando uma atmosfera fria e dramática do evento. Enquadrando a perspectiva sob a ótica da platéia, sutilmente contraposta à figura do homem – ao mesmo tempo Quixotesca e Titânica.
Enfim, “O Lutador” chamou a atenção pela sua fotografia privilegiada, provavelmente fruto da experiência que Kubrick adquirira sobre essa técnica, em sua breve e precoce passagem como jornalista e fotógrafo.
Este foi seu primeiro filme. Contudo não foi ainda um longa metragem.
Seu próximo filme foi um longa “Noir”, de produção independente e atores desconhecidos, sobre a relação entre um lutador de boxe fracassado e uma dançarina da noite. Nesta película, o lutador veio a se tornar também um assassino, já demonstrando seminalmente a queda por temas que revelassem a perversão como uma extensão da sociedade civilizada.
“ Spartacus ”
Seu primeiro filme da fase holywoodiana. Reuniu grandes atores como Lawrence Olivier, Kirk Douglas, Charles Laughton, Peter Ustinov etc., entretanto já aí ele não demonstrou se sentir muito à vontade com o Mainstream.
À abordagem dos grande épicos preferiu focar os personagens, praticamente dividindo-os entre aqueles cuja violência era a única linguagem que conheciam – os gladiadores -, e que não apresentavam grandes nuances psicológicas, e a elite romana, retratada como casta de valores decadentes, que vivia urdindo planos de tomada do poder sob a égide do “Senado Romano”, uma instituição falida como representação popular. Os Patrícios eram manipulados pelos Senadores, em seus projetos de poder.
Mais uma vez Kubrick recoloca o tema da perversão como fenômeno social, uma disfunção da civilização. Ao se rebelar, aqueles que eram objeto da crueldade patrocinada pela casta da nobiliarquia da república, catalisam a insatisfação latente de um império decadente. Entretanto, como um pathos constante na obra de Kubrick, aquilo que parece estar controlado por mecanismos remotos, de repente aflora de forma selvagem e bárbara.
“ 2001 – Uma Odisséia no Espaço ”
À época considerada uma obra que sintetizou o limiar de uma nova era – pela justaposição inicial a tudo o que havia sido feito até então, através da metáfora das descobertas datadas da pré-história do homem ... com um corte abrupto para esse mesmo homem, no Século XXI . Uma nova perspectiva do que viria a ser a Ficção Científica Moderna, realmente sua linguagem foi precursora de muitos outros filmes que o sucederam.
Outro aspecto importante, o Estético. A existência da gravidade como elemento real, que mantém uma ordem universal, foi magistralmente expressada espatifando o simulacro, através do qual o espaço infinito era reduzido a um mundo de quimeras, muito mais assimilado ao inferno subterrâneo de Dante.
Porém, a grande revolução apontada pelo filme foi o advento da Era da Informação, onde as relações humanas agora eram permeadas pela interferência da máquina. Não é à toa, que um computador dita o destino de toda a tripulação da nave. Este dispositivo neuro-cibernético é propositadamente assemelhado ao comportamento e às reações do homem, nominável, que veio a se tornar um organismo auto-destrutivo – mote observado em toda a obra de Kubrick, em que, mesmo não sendo de “esquerda”, são as contradições do próprio sistema que o levam a um processo de decadência. Em uma análise mais acurada dos temas recorrentes nos seus filmes, essa decadência nunca origina uma nova perspectiva mas desemboca em um movimento catártico, desprovido contudo das teses da terapeutica psicanalítica tradicional, entretanto muito crítico do viés psico-social da sociedade capitalista puritana.
Embora frio, é um marco do cinema: cheio de significações que mostram a transformação tecnológica, em andamento, da era da industrial para a era da informação, e suas conseqüências antropológicas – porque este sempre o foco de Kubrick, o homem.
“Laranja Mecânica”
Laranja Mecânica pode até parecer em seu texto, um filme que captava o prenúncio do movimento “Punk” em sua virulência urbana. Entretanto, foi muito além em suas pretensões temáticas, e, sobretudo, estéticas.
O protagonista longe de ser um proto-punk, não tem motivação alguma para agir como age. Nem crítico das instituições, iconoclasta, ou de origem proletária, antes de tudo ele parece viver num limbo social, o qual lhe permite ser apenas o que é – um produto de alguma ideologia alienígena totalitária.
A geografia e geometria das cenas se parecem com “2001...”, com ambientes claustros, que sugerem uma forma entrópica de enquadramento, com distorções de imagem e travellings ... portas que são a separação entre o devaneio e a realidade – um traço lúdico, talvez influência da fábula de Lewis Carrol – Alice, no País das Maravilhas.
Mais uma vez, a temática da perversão como um sub-produto social é o que sobressai na narrativa de Kubrick ... entretanto dessa vez ele incorpora como pano de fundo, sutilmente, a tessitura de uma superestrutura jurídico-política totalitária, seguindo uma perspectiva, sobretudo na época em que foi feito o filme, observada em outros filmes como “1984”, e mais tarde “Brazil, o Filme”... O que, do ponto do vista da economia política da reforma do Estado, na Inglaterra, era um assunto bastante em voga, que veio a culminar com a desestatização de muitas empresas inglesas na governo Margareth Tatcher, “ A Dama de Ferro ” ... mais uma vez a vida imita a arte, ou, pelo menos, há uma relação de imanência entre ambas.
Outros filmes : "Glória feita de sangue", "Lolita", "Dr. Fantástico" e "O Iluminado".
Por Antonio Henrique Garcia
sexta-feira, 25 de julho de 2008
HANCOCK
Assisti a um filme muito legal esta noite, em uma das salas do CINEMARK ...
Hancock é sem dúvida um herói diferente. A saída para sua genealogia foi bastante interessante, com uma narrativa que tem o grande mérito de ser incidental, lastreada em um argumento extremamente conciso e um pathos, que tem como principal elemento o conflito entre tempo e história. Isto decorre tanto de citações que beiram o épico, quanto da justificativa mitológica encontrada como um cascalho de diamante bruto.
Resulta assim, um filme de super-herói plenamente fundamentado esteticamente. A dicotomia entre homem e mito é dinâmica, contrapondo eternidade e mortalidade. Diria que é um Highlander mais real - série de filmes protagonizados por Cristopher Lambert, sobre o herói mitológico das terras altas da Escócia, que viaja no tempo.
A relação entre os dois protagonistas, mesmo monossilábica, é significativa. Representa a luta existencial entre possibilidade e impossibilidade, ou seja enquanto um não tem projeto e é um ser marginal, apartado, creio que baseado no conceito de autores e diretores clássicos americanos como Howard Hawks e Budd Boeticker, do herói solitário; o outro, abdica de seus poderes para se encaixar em uma vida padrão com família etc. Existe uma nuance radical nessa confrontação, enquanto um representa o caos, o outro pretende modificar o mundo pela difusão do amor e da compreensão.
Alguma relação com a política externa americana ?
Há ainda uma galeria de tipos que beiram a caricatura, que seria talvez a visão que os deuses – gregos, romanos, nórdicos etc. – teriam dos humanos.
O resto, são efeitos especiais, porém justificadamente utilizados na composição do filme, consolidando o seu discurso. A música, provavelmente segue a linha de Will Smith, com muitos rap’s e outros estilos neo-urbanos que denotam uma atmosfera conflagatória à narrativa.
Filme estrelado por Will Smith e Charlize Theron. Vale pelos ícones, e ambos o são. Vale a pena assistir, como entretenimento e mais ... Todo filme tem algo além, subliminar ou espetacular !
Por Antonio Henrique Garcia
Hancock é sem dúvida um herói diferente. A saída para sua genealogia foi bastante interessante, com uma narrativa que tem o grande mérito de ser incidental, lastreada em um argumento extremamente conciso e um pathos, que tem como principal elemento o conflito entre tempo e história. Isto decorre tanto de citações que beiram o épico, quanto da justificativa mitológica encontrada como um cascalho de diamante bruto.
Resulta assim, um filme de super-herói plenamente fundamentado esteticamente. A dicotomia entre homem e mito é dinâmica, contrapondo eternidade e mortalidade. Diria que é um Highlander mais real - série de filmes protagonizados por Cristopher Lambert, sobre o herói mitológico das terras altas da Escócia, que viaja no tempo.
A relação entre os dois protagonistas, mesmo monossilábica, é significativa. Representa a luta existencial entre possibilidade e impossibilidade, ou seja enquanto um não tem projeto e é um ser marginal, apartado, creio que baseado no conceito de autores e diretores clássicos americanos como Howard Hawks e Budd Boeticker, do herói solitário; o outro, abdica de seus poderes para se encaixar em uma vida padrão com família etc. Existe uma nuance radical nessa confrontação, enquanto um representa o caos, o outro pretende modificar o mundo pela difusão do amor e da compreensão.
Alguma relação com a política externa americana ?
Há ainda uma galeria de tipos que beiram a caricatura, que seria talvez a visão que os deuses – gregos, romanos, nórdicos etc. – teriam dos humanos.
O resto, são efeitos especiais, porém justificadamente utilizados na composição do filme, consolidando o seu discurso. A música, provavelmente segue a linha de Will Smith, com muitos rap’s e outros estilos neo-urbanos que denotam uma atmosfera conflagatória à narrativa.
Filme estrelado por Will Smith e Charlize Theron. Vale pelos ícones, e ambos o são. Vale a pena assistir, como entretenimento e mais ... Todo filme tem algo além, subliminar ou espetacular !
Por Antonio Henrique Garcia
quinta-feira, 17 de julho de 2008
DREAMGIRLS
A saga de garotas da periferia de Detroit em busca do sucesso como cantoras de Rythim&Blues. Entretanto, muito mais do que isso elas buscam se libertar daqueles grilhões que as mantêm como objeto sexual, com todas as sujeições que isto representa. Elas buscam a realização total como mulheres e cantoras, o que no universo em que se passa a narrativa desemboca em um complexo de preconceitos e sentimentos encarniçado das relações humanas, em um contexto, apesar da época do filme – anos 70 -, ainda muito machista e chauvinista.
O história do filme retrata também a forma selvagem como eram tratados os negócios, mesmo dentro da comunidade negra. Homens e Mulheres eram manipulados pelos magnatas das gravadoras - Motown etc -, servindo aos seus propósitos mercadológicos, os quais, em se tratando de uma população cuja música “Gospel” era algo quase sacro, se conflitavam com uma raiz cultural extremamente presente no cotidiano da população negra.
O filme emana muito sentimento, catarse, e a emancipação por parte das protagonistas de um sistema que reproduz a divisão de classes, valor social dos brancos, no âmbito da sociedade negra.
Entretanto, apesar do seu realismo, não deixa de ser um musical que mistura muito drama. O que o faz uma combinação explosiva, além disso composto por um elenco bastante afinado, principalmente porque em sua grande maioria por negros. Jamie Fox, Beyoncé, Eddie Murphy – com uma caracterização muito representativa do títere, de caráter fraco -, encabeçam um grande elenco.
Acho que aqui no Brasil, tivemos um filme com a mesma temática, que foi o “Meninas do ABC”, que trata dessas questões como sobrevivência, busca pelo sucesso, afirmação social, realização pessoal etc.
Enfim, um grande filme, contudo disponível atualmente apenas nas locadoras.
O história do filme retrata também a forma selvagem como eram tratados os negócios, mesmo dentro da comunidade negra. Homens e Mulheres eram manipulados pelos magnatas das gravadoras - Motown etc -, servindo aos seus propósitos mercadológicos, os quais, em se tratando de uma população cuja música “Gospel” era algo quase sacro, se conflitavam com uma raiz cultural extremamente presente no cotidiano da população negra.
O filme emana muito sentimento, catarse, e a emancipação por parte das protagonistas de um sistema que reproduz a divisão de classes, valor social dos brancos, no âmbito da sociedade negra.
Entretanto, apesar do seu realismo, não deixa de ser um musical que mistura muito drama. O que o faz uma combinação explosiva, além disso composto por um elenco bastante afinado, principalmente porque em sua grande maioria por negros. Jamie Fox, Beyoncé, Eddie Murphy – com uma caracterização muito representativa do títere, de caráter fraco -, encabeçam um grande elenco.
Acho que aqui no Brasil, tivemos um filme com a mesma temática, que foi o “Meninas do ABC”, que trata dessas questões como sobrevivência, busca pelo sucesso, afirmação social, realização pessoal etc.
Enfim, um grande filme, contudo disponível atualmente apenas nas locadoras.
Por Antonio Henrique Garcia
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