“ A Outra ”, como título, sugeriria várias interpretações decorrentes de suas diferentes conotações no tempo e no espaço, na condição de uma verdadeira entidade ou instituição para-familiar. Entretanto, parte a narrativa de um ponto de vista comum – o da concubina, amante etc. - evoluindo para uma trama urdida por uma mulher, cortesã e arrimo de uma família decadente cujo único patrimônio era seu título de nobreza, móvel conveniente nas relações de poder que prenunciavam o nascimento de um estado central, representado na figura do Rei e todo o aparato que o orbitava.
Contudo, a pretensão de se criar um enredo a partir de um fato histórico emblemático e de desdobramentos tão importantes para civilização ocidental, pegando carona no formato trágico, careceu de um tratamento mais profundo tanto na construção quanto na direção dos personagens. Ponto para a caracterização de um ambiente amoral, em uma época que ainda oscila entre costumes bárbaros e a secularidade eclesiástica.
Entretanto, a crueza que permeia toda ação da trama, demanda uma elaboração estrutural mais consistente. A personagem de Ana de Bolena, não encontra seu arquétipo, elemento fundamental na construção de um personagem trágico. Suas ações resultam deslocadas, sem referência essencial. A tentativa de fazê-la protagonista do contexto histórico no qual se insere a trama -, que vem a ser o argumento do filme -, resulta uma referência episódica desprovida de força anímica, o que paradoxalmente a aproxima da história oficial, da qual se tentou desprender. Mesmo a tentativa do incesto – não sei se fato ou não – soou estranhamente puritana... um belo exercício.
O final no entanto reserva o momento mais coerente do filme. A postura do monarca, é plenamente justificável no âmbito do contexto da narrativa e da história; o sacrifício como pena e forma de submissão é um modelo e costume introjetado na sociedade – o catártico espetáculo da execução -, preservado como instituição pulverizadora das inquietações sociais.
A perspectiva dedicada pelo filme à futura ascensão da princesa Elizabeth, indicando iminência de um novo momento histórico-civilizatório é também um feliz epílogo encontrado para o desfecho do filme.
Por Antonio Henrique Garcia
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