Certamente a dimensão colossal, que, por exemplo, o próprio Henri Miller, através de recursos a topônimos, atribui às diversas passagens que constituem a história da civilização helênica, ou mesmo a dimensão humana de uma nação composta por homens e mulheres que são o registro vivo de valores e tradições, pulverizados por séculos de existência -, que se escondem sob maneiras pouco ortodoxas, uma geografia acidentada, manifestações rudimentares etc... sob o manto de um encanto visceral. Colosso e Visceralidade, como pretendia Henri Miller ... isto não se terá em “Mama Mia”.
Entretanto, não se está falando de literatura mas de cinema – embora esta diferenciação seja em vários casos conveniente, e é este o caso. As poucas manifestações típicas foram notoriamente estilizadas, mas de qualquer forma esta não era uma preocupação estética ou mesmo do texto. A atmosfera está mais para “Xanadu”, com Olivia Newton Jonh, contudo as locações originais e a opção pela superficialidade como limite no enfoque de todo aquele microcosmo – que já foi material para “Zorba, o Grego” -, funcionaram bem no estilo e no gênero escolhidos.
Gênero, musical. Timing frenético. Trilha toda calcada na sonoridade melíflua do ABBA e um tratamento contemporâneo na contextualização da narrativa. Até o lado kitcsh e fake e os estereótipos, compõem a atmosfera leve e a efemeridade das coisas, que dão uma agilidade pandemônica às seqüências, tendo como contraponto de fundo um cenário mítico. Entretanto, o resultado não é leviano: não há contradição temática entre filme e história.
O mote do filme, a começar pela trilha sonora - para os padrões atuais anacrônica -, continuando com a menção a temas como casamento, relacionamentos livres, panteísmo, religião e costumes ortodoxos, internet e isolamento, parecer ser o cogito sobre a imbricação entre o velho e o novo, e da relatividade das suas conceituações e rotulações.
De resto, as passagens são deliciosas para quem já ouviu e, também, os que ainda não tinham escutado o ABBA, sobretudo a forma como os temas foram tratados com situações emblemáticas, inteligentes e risíveis, por personagens centrais que poderiam ser caricatos não fosse sua radical sincronia com o mundo real – homens e mulheres de meia idade, e suas diversas opções existenciais.
Por Antonio Henrique Garcia
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