"O gangster" se não fosse um filme, bem poderia ser uma simples crônica policial ou um épico da formação urbana americana – bem verdade, sobre um período relativamente curto, porém bastante intenso. E intensidade é o que não lhe falta, desde seu início fatalista – a morte de um homem singular em uma época conturbada, é um prenúncio de que os intestinos do sistema vão pular para fora.
O paradoxo de uma democracia em que até o crime é organizado sobre bases racistas, invoca que ele é imanente a essa sociedade, uma parte cruel; o aparelho policial também reproduz essa realidade. E esse é outro traço marcante do filme, seu realismo – talvez explicável por ser baseado em uma história real ... entretanto não lhe tira o mérito esse aspecto, pois sua concepção traz à luz a complexidade de uma sociedade que se auto-mutila em suas diferenças aparentes. Algo subjacente a tudo, algo que traduz o universo urbano e suburbano de uma sociedade barbarizada, como se houvesse uma divisão social da frustração humana entre a classe dominante puritana e os que dela não descendem, moral ou geneticamente – obviamente desfavorável à última ...
Italianos, irlandeses e negros co-habitam nesse mundo. Esse é o mote da narrativa, texto onde não são as palavras que marcam; ao contrário, existe um código de sobrevivência que naturalmente leva ao conflito e invariavelmente à morte – seja ela gradual ou abrupta, fruto de uma luta que ultrapassa qualquer categoria, grupo ou classe social, situando-se na esfera do indivíduo – um indivíduo Darwiniano.
E é justamente um indivíduo, no seu sentido literal, forjado entre os dejetos e o lixo da sociedade – reservado aos negros, seja nos campos e arrabaldes sulistas, seja nos guetos das metrópoles -, que protagoniza essa narrativa muito bem captada e contextualizada de uma época. Um homem que consegue transitar entre o velho e novo, um iconoclasta empedernido que viceja naquele submundo, cercado não por cercas de verdade mas por relações internas e externas a ele, enfim por uma ordem inexorável.
Era o cenário perfeito para sua aparição, contra-cultura, hippies e o escapismo provocado pela decepção com os rumos da guerra com o Vietnã. Entretanto, seu modus operandi segue a mesma racionalidade mercadológica de qualquer empreendedor capitalista, vendendo o que a sociedade demandava – heroína em pacotinhos azuis a preços extremamente atraentes, cuja matéria prima era conseguida de um modo um tanto subversivo – através do aparelho de guerra . Afinal, um negro transpõe as barreiras do gueto e ousa romper com aquela conveniente geografia de uma ordem secularizada.
A cena em que sua mãe diz que ela o abandonará, sua linda esposa o abandonará e seus irmãos farão o mesmo, é o corte que prenuncia o desfecho do filme. Algo entre o drama shakespiriano e universo escatológico que persegue a cultura americana.
Afinal, uma personalidade tão predadora quanto o “ Cidadão Kane ” de Orson Welles.
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