Para começar esse texto vou usar uma citação do jornalista polonês, Ryszard Kapuscinski, conhecedor dos problemas africanos, tanto quanto um europeu poderia ser, “ Já pensei em escrever um livro sobre Amin, pois ele é o mais vivo exemplo entre criminalidade e cultura. ”.
O filme entretanto se reporta quase que inteiramente à sua personalidade aparentemente esquizofrênica e suas manias de grandeza. Tudo gira em torno desses impulsos fruto do pânico de perder o poder – derivado de uma grande fraqueza, de associar tal poder à sua própria vida , é este o pathos que a película opta por focar -, o medo do caos que ele próprio gera se volte contra si. Mesmo não sendo o seu objetivo ser documental, o filme peca por se render à uma imagem, um ícone de um problema maior que é turbulência de todo um continente.
O recurso ao alterego europeu contribui de forma de decisiva para a dramaticidade da narrativa – ele catalisa o microcosmo da cúpula do poder, contudo o cenário insaciável, a conflagração étnica latente de uma nação cada vez mais dividida, mereceria uma maior importância na narrativa da película.
O europeu que, inicialmente tenta decupar suas intromissões catastróficas no processo de independência e formação dos países africanos, é tomado pela febre do poder – algo com o qual ele não sabe lhe dar, porque nem sabe que existe em seu conforto blindado -, plasma o Amim que vagava pelas tropas inglesas tratado de forma negligente e indulgente. Neste sentido, Amim foi algoz e vítima.
O filme entretanto não transcende este conflito, mas é muito bom. Os delírios de poder do ditador, suas atrocidades, isso é apenas como diz o próprio Amin, o desejo de ser um deles – assimilado a eles de forma nobiliárquica -, ao que parece ele foi inteligente o bastante para compreender aquela cultura estrangeira e predadora. Este o seu único legado.
“ O Último Rei da Escócia ” é a história de um homem e seu alterego, não por acaso um jovem escocês a ser suprimido em ritual tribal. Um final banal e terrificante. Assim como tem sido tratada a própria África – o pano de fundo das mais profundas e violentas catarses coletivas do último século. Tudo ali se resume à sua identidade, vítima ou predador.
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