segunda-feira, 7 de abril de 2008

MANDANDO BALA

“ Mandando Bala ” – como descreve Habermas sobre a transição histórica do pensamento, com a Crítica da Razão Pura de Kant como transcendência do método científico tradicional, depois Hegel elaborando ainda de forma seminal a importância da subjetividade em uma Alemanha marcada pela rigidez de idéias para-religiosas, entre o luteranismo fundamentalista e a influência do iluminismo ... desconstrói de forma irônica as verdades que ainda são veiculadas por artefatos de manipulação maciça do poder que transforma processos históricos em blockbusters.

Neste sentido, “ Mandando Bala ” é uma obra de considerável importância, que se utiliza permanentemente conflitos significantes e ambivalentes, remetendo de forma direta aos temas que tentam abafar com discursos vazios.

Seus movimentos revelam uma ação calcada em uma trilha musical pesada, como um videogame, usando a mesma linguagem midiática veiculada pela indústria armamentista – um anacrônico culto fálico de fundo estruturalista -, de que a arma é uma extensão do homem. Mas, mais do que isso, como diz Baudrillard em seu livro “ Estratégias Fatais ”, levou-se ao limite do êxtase tal poder, a ponto de atribuir-lhe uma característica virtual de um super-poder, ligado à sua capacidade destrutiva, vista atavicamente como a única forma purificadora.

Seus personagens possuem todos um tom bizarro, talvez uma antítese dos estereótipos hollywoodianos; talvez elementos que carregam significados subliminares à narrativa. Mônica Belluci como a prostituta que preserva algum sentimento humano; Clive Owen, um personagem cujos movimentos são arquitetados como planos de videogames; finalmente, Paul Giamatti, magistral, com o seu pseudo-psicopata, o impostor ou símbolo a ser combatido pelo herói.

O absurdo dessa situação é denunciado claramente pelo argumento filme, por si só monstruoso e absurdo. Seu herói (?) padece do que poderíamos situar como o “ pathos ” do filme: participação involuntária na morte da mulher e da filha, vendendo armas para o atirador ... As inverossimilhanças são paradoxalmente o que constitui o elemento verdadeiro do filme, pois mostram o lado grotesco de tal instinto, funcionam como chaves – uma regressão à introjeção dos heróis, de indivíduos que têm que redimir toda uma nação e salvar o mundo.

Acreditar nas simbologias jocosas do filme é dar crédito a seu poder massificador. É atribuir ao dilema, a solução mais fácil, e sobretudo isolar a contemporaneidade da trama em seu significado mais óbvio, da obscenidade, do simulacro, das imagens escatológicas sem sentido. A percepção do seu texto - prolífico e radical - como um vírus gerado pela própria hiper-significação da obra, magnificamente explorada pelo autor, deságua em uma epifania cujas imagens mexem com nossos sentidos.

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