quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O Escritor Fantasma

Um Polanski. Não se pode dizer que seus filmes sejam engajados, no significado estrito do termo. Talvez libertário - em sua verve libertina -, aliás, um traço pessoal do autor. Entretanto, sua dimensão anarquista, e política, resulta dessa transgressão moral que incomoda àqueles que se preocupam excessivamente com os costumes.

O argumento do filme baseia-se na dissecação do perfil daquele que é o instrumento de um grande embuste político, controlado por um esquema baseado nos interesses do senhores da guerra e seus fantoches, no comando das grandes potências. O príncipe da fábula no entanto, é uma mulher - e sua carga sensual e trágica. O rumo da história e os desdobramentos dessa rede ganham contornos dramáticos, que têm como pano de fundo as relações internacionais, notadamente a política de alinhamento Estados Unidos-Inglaterra.

Essa trama que se situa entre a comicidade e o niilismo, tem como atores, um primeiro ministro, sua manipuladora esposa e um escritor fantasma, que se envolvem em um jogo psicológico, porém como todo filme de Polanski, há um elo entre os três personagens - a inescrupulosidade.

A fotografia calca-se em um matiz neutro e pouca profundidade. Os planos revelam uma paisagem estéril e inóspita, contra uma luz invernal que invade a tela, como que pulverizando a cena - como um efeito teatral -, em enquadramentos muito precisos. Além disso, o cenário e as remotas locações escolhidas, traduzem uma atmosfera absurda e fantástica.

Um Polanski. Talvez, o tema da relação Estados Unidos-Inglaterra e suas guerras púnicas, é que seja a novidade.

Por A.H.Garcia

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Syriana

Um filme desmistificador ... é o que pretende ser Syriana. O avesso do esquema dos blockbusters das grandes produtoras de Hollywood, braço midiático da propaganda intervencionista do estabilishyment norte-americano. Algo próximo a Chomsky, talvez menos combativo, porém bastante humano em sua denúncia, que transcende o cinismo e a passimônia com que esses temas são tratados. No Brasil, o nome para isso é subserviência.


Um filme forte, significante, sem concessões ao paradigma individualista da indústria.

Por A.H.Garcia

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Homem de Ferro 2

A verossimilhança subjacente no enredo do " Homem de Ferro 2 ", não tem outra função senão aquela de reafirmar a eugenia superior do protótipo americano. Podemos assistir a um complexo de imagens denotam o extremo poder de uma doutrina sobre a belicosidade e seu jogo de cena. A beleza devora a arte.


Estereótipos antiquados - remontando aos tempos da guerra fria -, conflituados heróis em contraponto às figuras bizarras que vicejam sob o desmazelado mundo pós-comunista, representado pelos párias sociais. Um clichê anacrônico, entretanto desconstruído para reeditar uma velha idéia.

Contudo, não há como negar que a produção resgata o glamour das películas hollywoodianas, com personagens icônicos sustentados por atores que, embora um tanto engastados, conservam ainda um élan inquestionável, como Robert Downey Jr e Gwyneth Paltrow, além da coadjuvante de luxo, Scarlet Johansson.

Mickey Rourke, após uma atuação visceral em " O Lutador ", voltou aos papéis caricatos, desprovidos de qualquer peso específico na história. Certamentre, um desperdício para um ator essencialmente existencial e atuações marcantes e contundentes.

Enfim, Tony Stark foi e ainda é um "autêntico" herói ... com uma nova roupagem, contemporânea, global ... entretanto lhe foi acrescentado, ou, talvez, acentuado, um novo atributo, o narcisismo. De fato, este traço tornou mais verdadeira e nem por isso menos densa, sua persona.

O " Homem de Ferro 2 " conseguiu ser melhor do que o primeiro, com um roteiro redondo e planos e efeitos ainda mais espetaculares. Todavia, seu tom excessivamente cínico reflete um certo reacionarismo à transição para uma nova ordem mundial.

Por A.H.Garcia

quarta-feira, 10 de março de 2010

Entre Deus e o Pecado

Filme de 1960, dirigido por James Brooks, que assina o roteiro também, com Burt Lancaster e Jean Simmons, cujo argumento é um tema bem atual – o mercado da fé. O texto trata o assunto com algum realismo, atributo de um enredo bem sustentado por um roteiro muito bom, que discute o papel dos pregadores populares no crescimento da indústria da fé.

Esse debate ocorre em duas vertentes. Uma delas, o jornalista que chegou a ganhar um Pulitzer - uma das poucas referências temporais - e acompanha as caravanas, o qual tem uma visão cínica sobre o espetáculo que cerca as pregações e os artifícios utilizados em tais eventos. A outra, é a elite pastoral – os pregadores formados em universidades, de diversas igrejas, que repudiam os métodos utilizados por aqueles mais populares, a quem atribuem a corrupção do sacerdócio e questionam os seus resultados.

Entretanto, o forte apelo popular não resulta apenas dos métodos derivados do Goospel – ou sua adaptação à população branca suburbana, ressentida com a perda dos valores tradicionais da América, em franca expansão do seu modelo consumista.

O irônico é que a técnica empregada por esses novos mercadores da fé, assemelha-se às mesmas técnicas do consumo de massa, e a fé um produto vendável – ou um sub-produto cultural de uma população alienada. O ritual representado pelos cultos resulta na catarse coletiva daquelas pessoas torturadas entre a moralpuritana e a realização dos seus desejos - sublimados e escamoteados pela cultura do consumo.

A personagem da pregadora representa bem essa ambiguidade oscilando entre a viver uma vida plena - sexualmente - ou manter-se casta e protegida das desilusões do mundo, capitulando ao final quando opta por morrer no incêndio de seu templo. E seus elementos parecem convergir para um grande vácuo existencial.

Burt Lancaster é sem dúvida um dos maiores atores de sua geração, e sua atuação é fenomenal. Com esse filme ele veio a ganhar a Oscar de Melhor Ator Principal.

Não é um filme com uma grande produção. Não existem nuances destacáveis quanto a arte, cenários, fotografia. Mas, a grande contribuição que ele dá é mostrar a América suburbana e seu interior, de forma objetiva e com o requinte de ser uma ficção.

Por A.H.Garcia

segunda-feira, 1 de março de 2010

Zumbilândia

Zumbilândia. Terra de zumbis. Aqui no Brasil, a palavra zumbi tem tem uma alusão histórica libertária, revolucionária – entretanto, não vou me dar ao trabalho de procurar no dicionário. Creio que a palavra tem a mesma raiz etimológica em ambas as línguas, embora uma significação fundamentalmente diversa.

Não è à toa, que essa significação é explorada pelo filme. Zumbilândia, sem dúvida, para lá e além de sua estética “trash”, pretende ser uma crítica à sociedade de consumo americana, contudo de modo absolutamente americano. Tem um discurso antropofágico, entretanto sem propor nada ... recaindo sempre na doutrinação escatológica do fim dos tempos – compreendendo-se o tempo e o espaço dentro de seus limites.

O texto apesar de primário, tem momentos divertidos. O roteiro fragmentado é um traço proposital e comum ao estilo “trash”, que se calca muito mais em cenas impactantes do que em sequências convencionais, e suas imagens evocam risivelmente aspectos patéticos da cultura americana, zombando da sua visão ufanista e utilitária.

Por falar nisso, a atriz Emma Stone merece atenção, transitando em versões Pin-up e Ninfeta. Woody Harrelson, sempre compondo tipos toscos, elementos intestinos do puritanismo messiânico, que pululam no imaginário popular da América. O protagonista, e em vários momentos narrador da trama, é um tipo interessante – parece carregar todas as neuroses e fobias de uma sociedade em permanente tensão, alguém que transita entre a maioria e a minoria, criando normas de sobrevivência para si - um anti-herói misantropo.

Bill Murray faz uma pequena e inócua aparição, e Abigail Bresling continua sendo a adorável garotinha de "A Pequena Miss Sunshine".

É um filme, todavia, que tem um argumento radicalmente contemporâneo ... a supervalorização ao limite das coisas e objetos consumados e sua equiparação ou capacidade de substituição do ser humano.

Por A.H.Garcia

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sherlock Holmes

Um Sherlock Holmes da mais pura estirpe – um super-homem à inglesa, imodesto e esgrimista de idéias, balançando estilosamente sob a acachapante moral vitoriana que, junto com outros tantos elementos compunham a atmosfera londrina da época. O personagem simboliza também a onipotência da Império Britânico, ao final do século XIX.

O filme consegue mostrar um pouco dessa visão imperialista da maior potência de então. E, parece-nos, deixa entrever uma significação em que se denota o ufanismo, o cientificismo, o chauvinismo, e, por fim, a ambiguidade entre um certo tom niilista e a perspectiva moralista que pontua no desdobramento final da película.

Um desses aspectos é o conflito ciência x magia – com a supremacia da primeira. No qual, entretanto, a ciência é usada como meio mistificador da realidade, que se afirma sobre os pilares da ideologia da supremacia inglesa. Sem dúvida, esta conotação política – guardadas as suas proporções – sustenta a mesma visão centralista e globalista que reverbera no seu discurso contemporâneo.

O cenário, contextualização, diálogos e demais passagens do texto, revelam um correto tratamento dos elementos temporais e sociais da época, característica do cinema inglês.

Aliado a isso, a composição que envolve seus personagens principais – entre arquétipos, estereótipos, e o senso de humor inglês -, para lá das idiossincrasias recorrentes observadas nos papéis do herói e do bandido – a vilania nunca teve o seu merecido valor, no cinema –, proporciona-lhes espirituosidade, leveza e algum senso crítico, misturados àquela aura de mistério típica dessas estórias, que tem seu lugar reservado na literatura inglesa e universal.

Entretanto, a fotografia sem maiores nuances e a falta de planos tornam o filme excessivamente padronizado, traduzindo um exagerado apuro comercial no tratamento de aspectos que demandam uma perspectiva com maior densidade estética.

Enfim, essa talvez não seja a proposta dos produtores e do diretor. Mas, continua sendo uma boa diversão.

Por A.H.Garcia

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Vício Frenético

O título em português, mais uma vez, me soa estranho. O termo “frenético” no entanto, tem muito em comum com o ritmo da narrativa e a textualidade da película. A significação aí, não é meramente um jogo de palavras, mas a materialização de uma história pseudamente bizarra. Enfim, um filme de Werner Herzogh, com os delírios e os arroubos visionários de seu realizador.

Nesse caso, essa marca registrada do diretor produziu maior comicidade para quem o assiste, sem contudo resvalar para a comédia ou a paródia -, seria muito simples descrever assim o comportamento “patológico” do protagonista. Este, contudo, o mesmo visionário de Fritzcarraldo ou Aguirre. O que mudou radicalmente foi o contexto – marcado pela contemporaneidade e a ubiquidade dos fenômenos sociais, notadamente em um país da importância dos Estados Unidos.


A cena do filme se dá em Nova Orleans. Flanco da América do Norte com os atributos necessários para a visão libertária e marginal de Herzogh -, que constrói um filme ao mesmo tempo próximo dos padrões e altamente subversivo, tanto em relação à significação dos elementos dramáticos quanto dos símbolos de que se utiliza. As loucuras risíveis do protagonista tem seu desdobramento potencializado pelos simbolos representados pelos reptéis que só ele vê, e que ancoram a história no fabulário proposto como forma narrativa pelo autor-diretor.


O fotografia está magnífica. Remete ao cinema expressionista com o recurso simples ao jogo de luz e sombras, e os closes em Nicolas Cage possuem uma expressão muito próxima daquela do Dr. Caligari, de Robert Weine, – eminente mistificador ... alguma correlação com regimes fascistas ... parece que isto passou pela censura da “indústria”.


O final para muitos é motivo de perplexidade, pois não há um desenlace. Este notavelmente antecipado pelo diretor, quando todos os desejos imediatos e básicos do protagonista se materializam, e os prêmios são-lhe ironicamente concedidos. Diria mesmo, que o detetive muito bem representado pelo Nicolas Cage é um legítimo herdeiro do Dr. Caligari. E a perplexidade deveria dar lugar à reflexão.

Salve Werner Herzogh!

Por A.H. Garcia