Antes de assistir ao filme tinha lido um texto no jornal “ A Tarde ”, que o crítico concluía dizendo em relação à narrativa, que, apesar da parte final ter sido mais movimentada – ou algo que o valha – o filme havia sido comprometido pela direção arrastada no seu miolo – ou algo que o valha.
Isto já seria uma análise superficial até para o pior filme ... Entretanto, estamos falando de um grande filme – que provavelmente seria rotulado de cult até algum tempo atrás -, que de arrastado não tem nada, senão uma feliz e profícua alusão ao Ulisses de Joyce. Por isso, o miolo que o in-feliz crítico chama de arrastado é um texto prenhe de significações, com uma narração e ritmo que beiram quase à literatura, e a ambigüidade que permeia todas as evocações do narrador – que, como no livro, pode se discutir se é o niilismo da obra ou a característica existencial do personagem, esperança de um ou cinismo do outro – remete de forma imediata e latente à subversão como uma forma de reação aos dogmas e às convenções do senso comum.
Mas, mesmo essa seria uma das muitas leituras de Ulysses. As suas experiências com as palavras, criam novas possibilidades mundanas, algo próximo às imagens do surrealismo. E é aí o ponto de congruência entre livro e filme, o que o in-feliz crítico chama de arrastado é a profusão simbiótica de imagens e palavras que viajam no tempo – presente e passado.
Os nomes dos protagonistas, Stephen e Bloom, não deixa de ser mais uma alusão ao livro. Bem como a paisagem européia, descortinada por Joyce em seu périplo e no dos personagens, que transitam por lugares quase que por algum desígnio astral, mitológico do grande viajante. E enfrentam desafios da mesma ordem, que são a essência da civilização ocidental.
Enfim, não é um filme estrito. É muito mais. É navegar mediterraneamente por desvãos e cavernas imaginárias. E é isto que os personagens fazem magnificamente pelas mãos do diretor, que não me ocorre o nome.
Por Antonio Henrique Garcia
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