“ Dúvida ”. Substantivo feminino que designa incerteza sobre verdades estabelecidas, ou posição que se deve adotar frente a aspectos concretos que se baseiam em tais dogmas. Pelo menos, é o que se espera quando nesta dúvida estão envolvidos questionamentos morais e metafísicos.
Poderíamos dizer, que o argumento da obra reside nessa palavra e nesses aspectos, decorrentes das contradições que marcam a formação dos quadros da igreja católica em uma sociedade predominantemente puritana – e sua irrefreável pulsão sexual.
A caracterização do ambiente, propositadamente árido e ressequido pelo frio inverno, e o jardim, que, não por acaso, concentra a significação do filme – o local onde são travados senão os diálogos mais fortes, os mais reveladores; jardim do éden ou purgatório dos ímpios. Em todo caso, lugar cujo vazio é simbolizado pelo branco da neve e a opacidade da atmosfera, que caracterizam a fotografia e a luz do filme em suas seqüências externas, e expõe a densidade e o conflito dos personagens – que se revelam como chaves para entender como se fundem e clivam fatos políticos e morais, tendo como fio condutor o embate entre uma freira e um padre.
Neste embate, há uma conotação subjacente de emasculação da figura masculina e de histeria da feminina. Identificadas respectivamente, com o subjetivismo afetado que constituiria um atributo feminino, e a rigidez moral que deveria ser um atributo masculino –, a igreja uma estrutura eminentemente patriarcal e machista, desde suas origens. Essa inversão seria interpretada como uma distorção dos papéis que predominam secularmente na igreja católica.
Quando a dogmática freira admite pateticamente no desfecho do filme, que tem dúvidas. Estas não se refeririam às relações de poder e a ética da igreja ? E não seria esse o terreno propício para o aparecimento do fenômeno da pedofilia ali ?
Phillipe Seymour Hoffman e Meryl Streep protagonizam magistralmente essa parábola contemporânea. Uma parábola que tem por objeto a própria igreja e seus segredos.
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