Um filme de Woody Allen. Muitos vão dizer que ele já está ficando datado, com as mesmas referências ... e que ele já foi mais crítico, cáustico e inventivo.
Um filme de Woody Allen contudo, é como uma pequena peça do complexo painel que é a sua filmografia. Inicialmente com filmes intimistas - não à toa, estrelados por suas musas de então, Diane Keaton e Mia Farrow - com uma linguagem pícara próxima à do palhaço(clown), entretanto que espicaçava os grandes temas dos anos 70 - a liberdade existencial - e 80 - a psicanálise. Filmes que, não por acaso, refletiam também sua vida pessoal e a personalidade de suas divas, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Hanna e suas Irmãs, entre tantos outros.
Sua produção nesse período foi prolífica. Citaria um filme muito importante, que, para mim, foi um divisor de águas em sua obra: Zelig. Zelig, o Camaleão, foi uma incursão na modernidade, uma brincadeira com a linguagem da indústria e seus signos, de uma iconoclastia que detonava suavemente a cultura de massa.
Só consigo enxergar seu último filme através desse background que extrapolou, de longe, a embocadura prosaica que hoje ele ostenta. " Meia-noite em Paris" é uma crônica, que, não à toa, se utiliza de elementos fabulários ou do fantástico ... a oposição entre a realidade e o idealismo quase patético do protagonista do filme, em um processo de alienação que beira a loucura, e o conflito com uma elite fechada como uma ostra em seus dogmas anacrônicos, resultam ao seu final, na superação consciente do protagonista da sua negação e fuga da realidade, tendo como pano de fundo a "Era do Jazz" e os anos 20, possivelmente os mais profícuos para a literatura americana - no qual eles conseguiram deslocar o eixo de sua temática para o que estava acontecendo no resto do mundo, a Revolução Espanhola e os movimentos culturais que aconteciam em Paris.
Aliás, o protagonista do filme, um escritor de roteiros de cinema que quer se tornar um escritor de romances - um clichê dos mais batidos -, é como sempre o alterego do diretor. Owen Wilson entretanto escapa da banalidade, interpretando o papel minimalisticamente como se fosse o próprio Woody Allen.
Acho que Allen, como o Zelig, parodiou a si mesmo.
P.S. Obrigado Arnaldo, pelo bom gosto. Um viva a todos os Ivans Ilitich, que estão por aí.
Por A.H.Garcia
6 comentários:
A modernidade de Allen é muito próxima ao "deja vu". Portanto, não é moderna e não nos remete ao tempo.
A incapacidade de produzir uma Mailler questionador, ficamos assistindo um Allen apaziguador.
Nada melhor para apaziguar com os românticos em Paris, com Colle, um rebelde (+/-) da existência.Depois do dia vem a noite, inexoravelmente. E nada de novo acontece no Reino da Dinamarca (agora acontece) Por quê? Whay not?
I got under my sking, cheiro de pólvora usada para pseudamente defensivos agrícolas. Até quando PT? Saudações. Ajude a André Setarro que ele merece.
Arnaldo.
Grande Arnaldo. Realmente Allen é antítese do Mailler, mas acho que ele bebeu na mesma fonte ... Quanto ao filme, realmente é muito estereótipado para o meu gosto ... talvez tenha sido essa a sua intenção - o formato da história parece-se com um teatro de bonecos, com intervalos que precedem os atos, personagens simétricos e um final bastante moralista. Uma brincadeira de Allen, talvez aí resida sua ironia ...
Quanto ao André Setaro, sou fã dele ... na época, lia seus artigos assiduamente, no jornal.
Vou fazer o possível ...
De acordo, acredito no resgate da psicanálise Freudiana,proposta por Allen ,acho que JAKES avançou muito mais, no entendimento do sujeito.
Boa parte da produção de Allen teve um fundo psicanalítico bastante tradicional. Ao ponto, que Hanna e suas Irmãs é um tratado de psicanálise, culminando com a catarse final entre mãe e filha. Acho que le fez aquele filme pensando em Mia Farrow, sua mulher à época. Assim com quase todo o restante de sua filmografia, com algumas excessões. Entretanto, ultimamente ele tem fugido desse formato; talvez tenha exorcizado seus fantasmas - nada como o tempo ...
Não conheço muito bem Lacan, mas me parece que ele recontextualizou Freud em meio a tantos ataques existencialistas e estruturalistas ... e à sua pecha burguesa.
Uma errata ... para mim um erro ortográfico é um crime. No comentário anterior, onde se lê excessões leia-se exceções.
Abraços ...
Grande Arnaldo. Você tem notícias do Setaro ... soube que ele está coordenando sessões de cinema com debates, na Faculdade Baiana de Direito.
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