“A Duquesa”, tradução literal que encerra toda a pompa, e mais do que isso o poder imanente de uma classe sobre todas as demais.
Filme primoroso, que discute expressiva e ao mesmo tempo subliminarmente a retórica como a linguagem do poder, sob a qual todos se curvam em uma nação que até os nossos dias consagra seus costumes e idolatra suas personalidades como personagens épicos, que operam no inconsciente coletivo um subjetivismo fabuloso que subverte a realidade. Quadro que se mantém desde a unificação da Bretanha, cujo maior símbolo é uma lenda – “ O Rei Artur e a Távola Redonda”.
A Duquesa de Devonshire seria uma espécie de protótipo de Lady Di. Popular entre os súditos, entretanto com muito mais brilho que a última. O texto além de tudo é muito bom, com diálogos transbordantes de significado que radiografam a Inglaterra da época, em que um tema destaca-se: a liberalidade como conceito político e matiz iluminista, como efeito libertador das paixões em geral e da libido, em particular. Assim é a cena em que a duquesa é acariciada pela cortesã – uma iniciação às possibilidades do prazer além de sua conotação libertina, como algo transcendente – sensação desconhecida até então para ela.
Como todos os filmes de época ingleses, calcados em uma sociedade sempre dominada pelo auto-controle, e reprimida, afloram diversos questionamentos sobre as instituições sociais e mesmo da vida privada, que invariavelmente são muito bem explorados por esse gênero que tornou uma escola do cinema inglês.
Keyra Knightlei e Ralph Fiennes, dão o tom correto aos personagens, quase sempre contidos e polidos. Movidos cada um a seu modo, por desejos latentes que se superpõem às suas posições – determinadas pela genealogia e o sexo de cada um deles.
Filme denso, com grandes planos de cena que realçam a suntuosidade da época em oposição às limitações intrínsecas de uma sociedade que vive sob o tutela da representação, algo entre a realidade e a fábula.
Por Antonio Henrique Garcia
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