terça-feira, 7 de setembro de 2021

A IGNORÂNCIA DA ELITE... OU A ELITE IGNORANTE... OU, O COMEÇO DO FIM...

 "Convoco o Conselho da República..."

- Mas, qual o propósito...  

- Sei lá... Tem que se jogar dentro das quatro linhas... Não há necessidade de motivos (eu sou o motivo)!

- Como assim...   - A pandemia, a inflação, a crise fiscal, o desemprego... É para isso o Conselho ...

 - Não há nada disso aqui, está tudo ótimo... - Não posso fazer nada "paizinho", todos me censuram, isto não é liberdade de expressão... Estou distribuindo armas para todos... Poderemos vender as almas dos nossos índios num leilão, e ficaremos ricos... O Renato Russo falou isso naquela música... Como é mesmo o nome ? Isso "paizinho"... "Que País é esse"!

Mas presidente, precisamos de um fato grave... - E a minha frustação, isso não é grave... Estou cercado de patentes, para quê, se... - Não tenho suissas, mas mereço respeito, possuo várias almas na minha esplanada... - Veja como elas se curvam a mim... Sou um mito, "paizinho".

Enquanto isso, em outro salão uma voz ecoa... "impeachment"... Entretanto, a frequência não parece ser a das sereias, além disso falta-lhe a Lira para lhes embalar... Quem sabe, finalmente, o nosso herói pirandélico possa ser atendido em seu desejo... Quem sabe, em seu ato falho...

Por enquanto ressoa algo insano, freak e patético, aquelas palavras...  

 "Convoco o Conselho da República..."



domingo, 22 de agosto de 2021

LA MAISON DIEU



Bom dia a todos os que porventura lerem este texto, aliás contexto. 

Estou voltando do limbo... Estava caminhando pelos círculos infernais ultimamente, povoados de gente perdida na obscuridade das suas encruzilhadas, mas, graças a deus, consegui encontrar uma porta improvável no turbilhão de tantas penas... Meus semelhantes se tornaram zumbis, encalacrados em suas cavernas, nas passagens, nos círculos...

Essa porta que se abriu, foi meu reencontro com Renato Russo, com a Legião. Mais precisamente, uma música que dá nome a este testemunho... Uma coisa inesperada, mas que só a música é capaz (pelo menos para mim) de transportar... Um série de sentimentos que afloram, como raiva, frustração, impotência e estupefação, reviram nossas vísceras e embaçam nossas consciências, e como uma Epifania Whitmaniana encontram aquelas palavras libertadoras. 

Meu reencontro com Renato (e com a Legião) foi o elemento que, como um condão, me recolocou de volta na realidade e traduziu ali naquele momento, toda essa mistura de sentimentos. O nome da música, "LA MAISON DIEU"...

Vou lhes contar aqui o início de uma fábula, porque essa música já fala do seu final, hoje...  

Há mais de quarenta anos atrás houve em nossa nação um processo de "pacificação"... Uma anistia... Uma remissão histórica... E hoje traíram descaradamente aquelas promessas! 

Com vocês LA MAISON DIEU... Ou A ESCURIDÃO...

PS. Esta fábula tem como mote o desfile de carros alegóricos na NOSSA ESPLANADA DOS MINISTÉRIOS. Nós confiamos em vocês e (...) nos traíram, em nome de quê !?

Por A.H.Garcia





domingo, 25 de março de 2018

Mudbound - Fragmentos



Resultado de imagem para MudboundMississipi. Uma realidade suja, prenhe e mutilada , que nem a mesmo a guerra parece suplantar como contexto...  A violência se impõe como linguagem, o seu mundo é assim concebido -, não há o que questionar, não se pode se opor a algo terrífico, uma realidade que precede à própria existência oprimindo-a para uns, negando-a a outros e finalmente suprimindo-a a outros tantos...

É um outro tipo de guerra, uma outra patologia, uma guerra contra o indivíduo, contra a sua unicidade... Os sentidos devem ser combatidos e deformados por dogmas que vicejam na lama das enchentes do Mississipi. Cujos produtos revelam-se nos cânticos dos negros, na sua aculturação e finalmente na sua coisificação, não sem um processo violento, sem nem mesmo qualquer justificativa econômica, material, pois é sistema arcaico baseado na ignorância e na contradição de seus elementos,  resultando na conflituosidade radical e bestial como valores de uma cultura da violência que se utiliza da violência (in)diferenciadamente como forma linguagem e nas relações humanas.

Nesse microuniverso, se podemos chamá-lo assim, existe uma plêiade de relações entre os personagens.... 

Por A.H. Garcia

domingo, 28 de maio de 2017

171 - Negócio de Família

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171 - Artigo do código penal brasileiro, para contravenção por estelionato. Uma espécie de tabu, afinal ninguém gosta de ter um estelionatário na família - pelo menos, oficialmente. Sem contar as questões de ordem moral - ou amoral - que a "atividade" implica, considerando o estágio do aparelhamento institucional legal desde o final do século XIX para penalização dessas incursões marginais, que foram reprimidas e controladas por normas historicamente emuladas na escala civilizatória das sociedades hodiernas e seu arcabouço jurídico-político, que vai  se consolidando massivamente à par de uma sociedade cada vez mais complexa e controlada.

Nos Estados Unidos, é o arquétipo do herói, perseguido e criminalizado pelas instituições oficiais, que plasmam o país -, obsediado por seu poder redentor ... Nós, temos o nosso, com as mesmas ambiguidades, mas o contrário daquele, um anti herói - como Macunaíma, antítese da eugenia...

O tema da série em um país como o nosso é muito rico, pois trata de contradições inerentes às questões éticas, e seus desdobramentos morais nas relações sociais, em todas as suas variantes, em uma sociedade que basicamente se retroalimenta das diferenças baseadas nos valores aparentes - dignos de uma comédia de erros -, e na teoria republicana dos sistemas penais. Isto gera distorções - impunidade e privilégios, por exemplo.

O desenvolvimento da narrativa, mesmo se tratando de uma série semanal, é calcado em um roteiro muito bom, difícil de se ver ...  A história e seu texto têm um formato familiar à alma brasileira - que, incrivelmente pouco se vê na teledramaturgia brasileira, despojada dos excessos do artificialismo e dos clichês que delimitam os nossos textos, e ficam na superfície das comédias de costumes estereotipadas.

É difícil situar o seu gênero, algo que transita entre a tragédia e a comédia, mas não se consegue definir como tragicômico, devido à riqueza de sua problemática, que extrapola o indivíduo tratando-o, expõe sua alma e a alma de um país procurando uma identidade, assolado por uma farsa que consome sua energia descaradamente, e expõe problemas de estruturas anacrônicas e instituições viciadas.

Delicioso ver o cinismo de de Moreira e sua trupe, falando da malandragem genuína brasileira, e de suas falas impagáveis sobre assuntos seríssimos, porque são assuntos que já deveriam ter sido resolvidos... Só nos cabe rir da situação com a picardia que ela merece.

Personagens ricos, dramáticos e reais, em toda sua dimensão e sua acidez. Conflitos intestinamente expostos, que são um rolo compressor sobre a hipocrisia, uma reação a esse estado de fragilidade humana, de uma moral falida, de um país insulado em sua própria merda...

Direção de Roberto D'Ávila, cortes inteligentes dos episódios, a química do elenco é muito interessante, passeando fluidamente entre o drama e  a comicidade, o enfoque cultural de um microcosmo como o Bexiga, que pelos planos e suas imagens, de alguma forma passei a conhecer... São aspectos a se ressaltar.

Talvez a Universal não tenha percebido a amplitude do subliminar "dos círculos do inferno". A minha impressão é que estamos purgando os nossos pecados, sem contrição...

Ave 171 - Negócios de Família.


Por A.H.Garcia









quarta-feira, 1 de junho de 2016

DECAMERON de BOCCÁCIO



A Peste Negra que dizimava a Europa trazia consigo um sentimento de impotência. Alguns grupos em Florença - onde se passam os eventos - preferiam se entregar a uma atitude autodestrutiva; outros, preferiam se isolar, vivendo em templos esvaziados. Dissolução e ascetismo pareciam ser as únicas formas de resistência. Destruição x manutenção de valores em uma "terra arrasada", suas novelas retratam situações cotidianas com uma temática de subversão daqueles princípios da Idade Média.

O humanismo dos seus paradoxos morais destilam novas formas de relação, uma delas a decadência da noção de nobreza como um privilégio legitimado, entre outras formas, por razões de origem clericais ou de casta.

Qualquer semelhança com o radicalismo preconceituoso que hoje assola o nosso país, ou a a hipocrisia de quem um dia foi pobre e comprou o seu pedigree, ou a noção de que o dinheiro é a medida de tudo... ou de que status corresponde à sua conta bancária ... e, finalmente de que a corrupção é um privilégio que só os poderosos podem exercer... Ah!, e ainda, de que há um novo clero no "nosso reino", que se alimenta da pestilência dos nossos dias... é mera coincidência.

Penso com meus botões - como diria o Príncipe Galeotto -, em como será o porvir dessa "novela", terra arrasada ou um novo humanismo, livre dos grilhões da nossa velha elite (a Casa Grande) e seus colonizados, em grande parte incrivelmente egressos do que era a antiga senzala - um festim.
  
Senhores, a sorte está lançada, estão aí os Cunha, os Temer, os Jucá, os novos cardeais e abades da vez, que desfrutam da sua sorte ... e uma casta de seguidores, que se contentam em serem seus sucessores neste reino absurdo, da avareza, da subtração, da violência, da conspiração, da pusilaminidade...

É este o nosso destino, padecer ainda sob os auspícios desta "peste branca". 

Por A.H.Garcia

sábado, 28 de novembro de 2015

O Escritor Fantasma ( uma recontextualização )




Um Polanski. Não se pode dizer que seus filmes sejam engajados, no significado estrito do termo. Talvez libertário - em sua verve libertina -, aliás, um traço pessoal do autor. Entretanto, sua dimensão anarquista, e política, resulta dessa transgressão moral que incomoda àqueles que se preocupam excessivamente com os costumes.

O argumento do filme baseia-se na dissecação do perfil daquele que é o instrumento de um grande embuste político, controlado por um esquema baseado nos interesses do senhores da guerra e seus fantoches, no comando das grandes potências. O príncipe da fábula no entanto, é uma mulher - e sua carga sensual e trágica. O rumo da história e os desdobramentos dessa rede ganham contornos dramáticos, que têm como pano de fundo as relações internacionais, notadamente a política de alinhamento Estados Unidos-Inglaterra.

Essa trama que se situa entre a comicidade e o niilismo, tem como atores, um primeiro ministro, sua manipuladora esposa e um escritor fantasma, que se envolvem em um jogo psicológico, porém como todo filme de Polanski, há um elo entre os três personagens - a inescrupulosidade.

A fotografia calca-se em um matiz neutro e pouca profundidade. Os planos revelam uma paisagem estéril e inóspita, contra uma luz invernal que invade a tela, como que pulverizando a cena - como um efeito teatral -, em enquadramentos muito precisos. Além disso, o cenário e as remotas locações escolhidas, traduzem uma atmosfera absurda e fantástica.

Um Polanski. Talvez, o tema da relação Estados Unidos-Inglaterra e suas guerras púnicas, é que seja a novidade.

Por A.H.Garcia

sábado, 12 de setembro de 2015

BLADE RUNNER - Caçador de Androides





Filme de 1982, que se transformou em dos poucos clássicos dos últimos 30 ou 40 anos. Paris,Texas, de Wenders, também adquiriu esse status, por motivos diversos porém com o mesmo argumento. Repetição e diferença, intensividade.  A perspectiva de fim de século - com contornos proféticos, do fim do mundo -, nutrida por fenômenos culturais e políticos (iminente queda do muro de Berlim e fim da União Soviética), produziram um ambiente mimético definido como "o fim da história" - numa clara alusão à doutrina marxista materialista -, marcado pela dissolução das ideologias - melhor dizendo, da utopia de uma sociedade igualitária representada pelo pensamento da esquerda - e "superação" das contradições que permeavam a economia política capitalista. Como vemos nos dias de hoje -, as contradições longe de serem superadas, deslocaram seu eixo para novos nichos - ou melhor, novas formas de exploração e uma "nova" geografia da correlação exploração-acumulação. Não foi o fim ... Mas, o começo - e, como diz nosso "livro dos livros", "no início era o caos". Afirmou-se então uma nova categoria de interesses, de cujas motivações os valores humanísticos e as utopias eram anátemas.

Desculpem a digressão, mas esse contexto cultural de final de século - que se engendrou do contexto econômico e geo-político da época - foi cunhado ou rotulado sob o termo "pós-modernismo", que representava uma ruptura com a ideologia e o pensamento vinculados à oposição marxismo-capitalismo.

Uma obra de arte pós-modernista. Sem dúvida, o filme esteticamente reflete este conceito. Mas, como toda obra de arte, o extrapola, e recoloca a questão existencial, por mais que retrate um mundo composto de homens e androides ... Em tese, seria uma forma de se suprimir a "mais valia", justificando moralmente as relações econômicas capitalistas, pois não existem explorados.  Por outro lado, se criou uma nova forma de exploração e de reificação, gênese de um novo sistema ético - os androides dão uma uma aula de humanidade e de respeito pela condição humana, se tornando mais humanos que os humanos - talvez, demasiadamente humanos, como diria Nietsche.

Um filme que leva ao limite conceitos estéticos de uma época, e se afirma como limiar de outra ... a gênese da era digital, da comunicação cibernética compõem um substrato tecnológico que lhe perpassa, sínteses de cepa marxista ... obra baseada em livro de Philip K. Dick, autor que mistura experiências metafísicas e universo cyber ... elementos de um devir que logo veio a se afirmar, numa espécie de revolução digital que foi acompanhada de uma nova concepção das relações sociais e uma releitura do papel de suas instituições.

Em paralelo, adquiriu a conotação de cult-movie, graças à sua fotografia e cenografia, inspiradas textualmente pela cidade de Tóquio - sobressaindo-se para mim, a chuva, que nunca para, e cria uma atmosfera muito peculiar -, sua arquitetura e luminosos - um ícone pop, sem dúvida. Assim como a trilha sonora de Vangelis, uma obra à parte.

Foi uma felicidade assistir novamente o filme, e compará-lo com a experiência anterior.


Por A.H.Garcia