terça-feira, 12 de julho de 2011

CINEMA POLÍTICO ITALIANO

A Classe Operária vai ao Paraíso (1971), Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (1970) e Giordano Bruno (1973).

Trilogia do Diretor Elio Petri e do ator Gian Maria Volanté, sobre o cotidiano e a história italiana sob o foco político, isto é, como se engendram e clivam as relações sociais e as relações de poder, sob diversos pontos de vista.

A Classe Operária ... por exemplo, fala do cotidiano de Lulu, um operário industrial. Refletindo sobre a alienação e o engajamento político, e, como as condições materiais interferem na vida individual. O paraíso poderia ser a própria consciência de classe, ou na linguagem atual de grupo social.

Investigação sobre um Cidadão ... é uma reflexão sobre a significação do poder como instrumento repressor e o corporativismo policial como lógica de manutenção do status quo.

Já Giordano .... baseia-se no caso verídico da execução do filósofo italiano Giordano Bruno pela inquisição.

Em tempos de Césare Battisti, é uma boa pedida para se tentar compreender o cenário político italiano dos últimos 40 anos.

Por A.H.Garcia

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Meia-noite em Paris

Um filme de Woody Allen. Muitos vão dizer que ele já está ficando datado, com as mesmas referências ... e que ele já foi mais crítico, cáustico e inventivo.

Um filme de Woody Allen contudo, é como uma pequena peça do complexo painel que é a sua filmografia. Inicialmente com filmes intimistas - não à toa, estrelados por suas musas de então, Diane Keaton e Mia Farrow - com uma linguagem pícara próxima à do palhaço(clown), entretanto que espicaçava os grandes temas dos anos 70 - a liberdade existencial - e 80 - a psicanálise. Filmes que, não por acaso, refletiam também sua vida pessoal e a personalidade de suas divas, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Hanna e suas Irmãs, entre tantos outros.

Sua produção nesse período foi prolífica. Citaria um filme muito importante, que, para mim, foi um divisor de águas em sua obra: Zelig. Zelig, o Camaleão, foi uma incursão na modernidade, uma brincadeira com a linguagem da indústria e seus signos, de uma iconoclastia que detonava suavemente a cultura de massa.

Só consigo enxergar seu último filme através desse background que extrapolou, de longe, a embocadura prosaica que hoje ele ostenta. " Meia-noite em Paris" é uma crônica, que, não à toa, se utiliza de elementos fabulários ou do fantástico ... a oposição entre a realidade e o idealismo quase patético do protagonista do filme, em um processo de alienação que beira a loucura, e o conflito com uma elite fechada como uma ostra em seus dogmas anacrônicos, resultam ao seu final, na superação consciente do protagonista da sua negação e fuga da realidade, tendo como pano de fundo a "Era do Jazz" e os anos 20, possivelmente os mais profícuos para a literatura americana - no qual eles conseguiram deslocar o eixo de sua temática para o que estava acontecendo no resto do mundo, a Revolução Espanhola e os movimentos culturais que aconteciam em Paris.

Aliás, o protagonista do filme, um escritor de roteiros de cinema que quer se tornar um escritor de romances - um clichê dos mais batidos -, é como sempre o alterego do diretor. Owen Wilson entretanto escapa da banalidade, interpretando o papel minimalisticamente como se fosse o próprio Woody Allen.

Acho que Allen, como o Zelig, parodiou a si mesmo.

P.S. Obrigado Arnaldo, pelo bom gosto. Um viva a todos os Ivans Ilitich, que estão por aí.

Por A.H.Garcia

sexta-feira, 25 de março de 2011

A Megera Domada

Megera Domada para mim é um dos três melhores filmes com Elizabeth Taylor - os outros dois, Gata em Teto de Zinco Quente e Quem tem medo de Virginia Wolff -, e, não por mera coincidência, está entre suas melhores atuações. Um texto muito inteligente, de Shakespeare, cheio de diálogos ageis, cortantes e ferinos.

Esta paródia sobre os costumes medievais, brilhantemente transposta com todo seu arcabouço teatral para o cinema, na direção de Franco Zeffirelli, em 1967, teve como protagonistas Richard Burton e Elizabeth Taylor. A atuação da dupla foi perfeita, e Zeffirelli manteve-se fiel à linguagem teatral, porém lhe acrescentando os recursos que o cinema poderia proporcionar, adicionando ao texto falado uma fotografia em pequenos planos com uma abordagem pictórica e uma iluminação cênica, que realçam a ação e o movimento dos personagens.

A química entre os dois protagonistas - esta, ia além das telas, com a mesma intensidade - , seu timing e movimento corporal, e a familiaridade do diretor na abordagem do tema, resultam em uma atuação perfeita de ambos. Sobretudo, pode-se positivamente evidenciar o talento de Liz Taylor como atriz, inseparável de sua beleza irresistível. Para mim, Elizabeth Taylor possuía esse especialíssimo dom de fundir talento, inteligência e beleza.

Li em uma sinopse na internet, que obra seria uma comédia sobre a visão "chauvinista" masculina e a emancipação da mulher no século XVI. Acho que me descobri um tanto quanto "chauvinista", pois a personagem Katharina, para mim, representou um exemplar do que é ser uma megera.

Quem quiser apreciar a filmografia Elisabeth Taylor, sugiro esses três filmes como os mais significativos e importantes.

No mais, estamos dando adeus a uma das últimas divas de Hollywood. Contudo, atrás de todo clichê tem algo imanente e definitivo, e acho que Liz Taylor tem esse algo.

Por A.H.Garcia

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

" O homem que copiava "

O filme me interessou, na época, porque seria rodado em Porto Alegre. O lugar ao mesmo tempo mais cosmopolita do Brasil e um dos mais chauvinistas também. Em suma, é a síntese do ambiente urbano contemporâneo - muito louco e xenófobo. Acontece que ali é tudo muito extremado, a própria história do Estado confere isso. Revoluções separatistas, lutas territorialistas e uma identidade marcada por uma vocação libertária, quase anarquista, cujo maior símbolo foi o próprio Giuseppe Garibaldi. A priori, me pareceu que a história seria mais ambiciosa, do ponto de vista da razões acima e por um viés existencialista que permeia as relações que brotam nos núcleos dos grandes centros urbanos - argumento do filme -, que os americanos chamam de "downtown", e tem uma significação underground quando se amplia o foco sobre o cotidiano desses lugares. Pessoas comuns, que quase sempre habitam pequenos apartamentos - no sentido que Foucault dá ao termo, de controle e segregação social. Pela estética próxima dos quadrinhos, o tratamento minimalista que o diretor Jorge Furtado dedica à composição dos personagens e uma fotografia com um matiz "noir" muito bem editada, o filme fez carreira em festivais no Brasil e no exterior, tendo arrematado o prêmio de melhor Diretor e atores coadjuvantes com Pedro Cardoso e Luana Piovani, no Grande Prêmio Brasil de Cinema de 2004, contando com a participação de Lázaro Ramos e Leandra Leal como protagonistas, e Paulo José, o filme se tornou um "cult" contemporâneo do cinema nacional. Por A.H.Garcia Sinopse:

O filme, ambientado na zona norte da cidade de Porto Alegre, conta a história de André, um jovem operador de fotocopiadoras que precisa de 38 reais para se aproximar de sua vizinha Sílvia, por quem está apaixonado. Para isso, é ajudado por Cardoso, empregado de uma oficina, que topa qualquer coisa por dinheiro. Marinês é uma jovem que explora sua sensualidade para ascender na vida, e acaba se identificando com Cardoso.

Fonte: Wikipédia

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Vênus

O filme é um romance sobre um ator e suas paixões desenfreadas ... ou sobre como a libido em estado puro transcende a moral e os bons costumes ... ou, como o senso comum pode ser tedioso, neurótico e saudável. Enfim, são várias as possíveis leituras que se pode ter distanciadamente, não fosse o choque de realismo que acompanha o desenrolar da narrativa que não abdica em momento algum da linguagem direta e sem concessões ( melodramáticas), abordando a relação entre um homem em pleno ocaso existencial e uma jovem suburbana em cenas ricas em texto e significados, refrações do sentido da vida ... ou melhor, do poder da vida. Vale a pena ver ... o que para alguns pode ser humilhante ou degradante, pode ser belo e natural para outros. Daí o nome do filme - Vênus. Os atores - termo, aqui impregnado do seu significado lato - são a puríssima estirpe da escola inglesa. Para mim, levam a um transe, delírio e ápice infundidos por uma composição representativa, que implode e expõe o pathos da estrutura social compressora, que informa, deforma e conforma. E, no fim de tudo, ainda somos nós depois dessa grande ilusão ... Sou suspeito para falar de Peter O'tolle desde um filme em que faz um fugitivo inglês claustrofóbicamente acuado em buraco por soldados nazistas, no qual dá um solo de expressões, que, simplesmente, prescinde de qualquer palavra, e torna o filme um tratado sobre as emoções humanas ... e depois, aquela ambiguidade que ele imprime ao personagem de "Lawrence da Arábia" . Vanessa Redgrave - e sua beleza insondável em "Blow Up" - é uma musa délfica em cena ... sem contar o elenco de apoio - magistral. A trilha sonora é maravilhosa e contemporânea, pontuando The Cranberries. Mais uma vez, vi no canal fechado naqueles horários menos concorridos, ou seja, nas alturas da madrugada. Contudo, fico embevecido, catatônico, quando sou tocado por essas obras que o cinema ainda me proporciona e irá sempre me proporcionar. "Vênus". Por A.H.Garcia

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Hotel Ruanda

Filme que vi já há algum tempo. Segundo o crédito da TV fechada, é de 2004. É um filme duro, que mostra o genocídio que tem acontecido na Africa há 60 ou 70 anos, pelo menos - acompanhado de uma diáspora, graças à subversão imperialista que se estende desde o século XIX até os nossos dias.

Sartre já falava do problema de identidade do grande Patrice Lumunba, mártir da independência do Congo, um "evoluído" vítima de uma educação ministrada por padres jesuítas, dividido entre suas raízes e a assimilação da cultura do conquistador, sem contudo ter qualquer direito àquela cidadania.

O tema da narrativa é o pânico e terror em que vivem as populações desses países totalmente caóticos, cujo o principal motivo de conflagração é a questão étnica, uma guerra fratricida que diferencia seus cidadãos por sua raça ou tribo. Paralelamente, percebe-se uma transformação cultural e política, motivada de um lado pelo aculturamento desses povos e de outro pela estrutura de poder totalitária, financiada pelas antigas metrópoles.

O ator negro americano, Don Cheadle, é um pacato gerente do principal hotel do país, que tem acesso a informações privilegiadas pela sua posição. Ele se contenta com aquele status quo, sem maiores questionamentos até que a guerra chega em sua - até então - segura casa ... Aí parece se situar o pathos do filme, o conflito íntimo que, de alguma forma, finalmente o mobiliza a lutar pela sobrevivência de todas aquelas pessoas perseguidas pelo horror e desespero do holocausto.

O ator Joaquim Phenix, segundo me lembro, é um jornalista inicialmente cínico e distante daquelas mazelas do terceiro-mundo ... porém, não me recordo do desenrolar do seu personagem. Provavelmente, ele se transforma assim que entra contato com aquela realidade. Talvez, pelo senso altruísta, edificado pelos seus valores democráticos ... entretanto, sua ação será sempre evasiva.

Achei um filme digno de um Costa Gravas dos bons tempos ... embora temperado com muita ação e uma atmosfera rarefeita.


Por A.H.Garcia

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

The Runaways

Acho que as imagens dizem muito ... o filme é uma porrada seca ... crua ... revolve as vísceras até mesmo daqueles que participaram de todo aquele movimento, os que dele se beneficiaram - talvez, seus vanguardistas e ideólogos, que souberam mobilizar aqueles jovens anjos proletários desestruturados, ou a indústria que soube mais uma vez capitalizar a novidade, ou nós mesmos ...
que os consumimos como signo de rebeldia, após uma época em que o rock e a arte em geral eram uma forma de expressão bastante palatável, em que nada controverso ou explosivo acontecia.

As meninas do Runaways eram contemporâneas do Sex Pistols, Clash, Ramones, Stooges e tantas outras. Por trás de de seus gritos e sua verborragia tão desafiadora, da sua aparente subversão dos costumes e uma pretensa crítica ao sistema, eram uma espécie de Joana D'Arc ( ou Joana, A Dark ... como diria Marcelo Nova mais tarde ) se entregando ao sacrifício, ingenuamente, em um processo autodestrutivo.

Ora ... acontece que essa autodestruição foi como uma bomba kamicase que expôs os recalques de um segmento social que manifestava sua baixa autoestima ou a projetava de uma forma caótica, detonando instituições basilares do capitalismo. Essa jornada seria tão virulenta quanto transitória, pois para cada antídoto há um veneno ou vice e versa ... a indústria tratou de reciclar o movimento com se faz com qualquer sub-produto, através de um esquema de escala industrial que pulverizou os frageis egos daquelas meninas que de repente encontravam-se em cima de um púlpito com milhares de adolescentes histéricos como seguidores.

A letra de Geração Coca-Cola, de Renato Russo, traduz bem aquela época " Depois de vinte anos na escola, não é difícil aprender ... todas as manhas de um jogo sujo ... não é assim que tem ser ... vamos fazer nosso dever de casa ... e aí então vocês vão ver ... suas crianças derrubando reis ... fazer comédia no cinema com as suas leis ... ".

The Runaways mostra uma combinação de lirismo e revolta que é uma porrada ... e que não há geração espontânea ... pois é, Darwin estava certo.

Por A.H.Garcia