segunda-feira, 27 de junho de 2011

Meia-noite em Paris

Um filme de Woody Allen. Muitos vão dizer que ele já está ficando datado, com as mesmas referências ... e que ele já foi mais crítico, cáustico e inventivo.

Um filme de Woody Allen contudo, é como uma pequena peça do complexo painel que é a sua filmografia. Inicialmente com filmes intimistas - não à toa, estrelados por suas musas de então, Diane Keaton e Mia Farrow - com uma linguagem pícara próxima à do palhaço(clown), entretanto que espicaçava os grandes temas dos anos 70 - a liberdade existencial - e 80 - a psicanálise. Filmes que, não por acaso, refletiam também sua vida pessoal e a personalidade de suas divas, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Hanna e suas Irmãs, entre tantos outros.

Sua produção nesse período foi prolífica. Citaria um filme muito importante, que, para mim, foi um divisor de águas em sua obra: Zelig. Zelig, o Camaleão, foi uma incursão na modernidade, uma brincadeira com a linguagem da indústria e seus signos, de uma iconoclastia que detonava suavemente a cultura de massa.

Só consigo enxergar seu último filme através desse background que extrapolou, de longe, a embocadura prosaica que hoje ele ostenta. " Meia-noite em Paris" é uma crônica, que, não à toa, se utiliza de elementos fabulários ou do fantástico ... a oposição entre a realidade e o idealismo quase patético do protagonista do filme, em um processo de alienação que beira a loucura, e o conflito com uma elite fechada como uma ostra em seus dogmas anacrônicos, resultam ao seu final, na superação consciente do protagonista da sua negação e fuga da realidade, tendo como pano de fundo a "Era do Jazz" e os anos 20, possivelmente os mais profícuos para a literatura americana - no qual eles conseguiram deslocar o eixo de sua temática para o que estava acontecendo no resto do mundo, a Revolução Espanhola e os movimentos culturais que aconteciam em Paris.

Aliás, o protagonista do filme, um escritor de roteiros de cinema que quer se tornar um escritor de romances - um clichê dos mais batidos -, é como sempre o alterego do diretor. Owen Wilson entretanto escapa da banalidade, interpretando o papel minimalisticamente como se fosse o próprio Woody Allen.

Acho que Allen, como o Zelig, parodiou a si mesmo.

P.S. Obrigado Arnaldo, pelo bom gosto. Um viva a todos os Ivans Ilitich, que estão por aí.

Por A.H.Garcia