quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sherlock Holmes

Um Sherlock Holmes da mais pura estirpe – um super-homem à inglesa, imodesto e esgrimista de idéias, balançando estilosamente sob a acachapante moral vitoriana que, junto com outros tantos elementos compunham a atmosfera londrina da época. O personagem simboliza também a onipotência da Império Britânico, ao final do século XIX.

O filme consegue mostrar um pouco dessa visão imperialista da maior potência de então. E, parece-nos, deixa entrever uma significação em que se denota o ufanismo, o cientificismo, o chauvinismo, e, por fim, a ambiguidade entre um certo tom niilista e a perspectiva moralista que pontua no desdobramento final da película.

Um desses aspectos é o conflito ciência x magia – com a supremacia da primeira. No qual, entretanto, a ciência é usada como meio mistificador da realidade, que se afirma sobre os pilares da ideologia da supremacia inglesa. Sem dúvida, esta conotação política – guardadas as suas proporções – sustenta a mesma visão centralista e globalista que reverbera no seu discurso contemporâneo.

O cenário, contextualização, diálogos e demais passagens do texto, revelam um correto tratamento dos elementos temporais e sociais da época, característica do cinema inglês.

Aliado a isso, a composição que envolve seus personagens principais – entre arquétipos, estereótipos, e o senso de humor inglês -, para lá das idiossincrasias recorrentes observadas nos papéis do herói e do bandido – a vilania nunca teve o seu merecido valor, no cinema –, proporciona-lhes espirituosidade, leveza e algum senso crítico, misturados àquela aura de mistério típica dessas estórias, que tem seu lugar reservado na literatura inglesa e universal.

Entretanto, a fotografia sem maiores nuances e a falta de planos tornam o filme excessivamente padronizado, traduzindo um exagerado apuro comercial no tratamento de aspectos que demandam uma perspectiva com maior densidade estética.

Enfim, essa talvez não seja a proposta dos produtores e do diretor. Mas, continua sendo uma boa diversão.

Por A.H.Garcia